14 de abr de 2012

Olhos nos olhos de Chico Buarque no show em Recife.

www.chicobuarque.com.br

Olhos nos olhos

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.
Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.
Chico Buarque
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Essa é uma das músicas que mais gosto dentro da imensa obra de Chico Buarque. Gosto principalmente da parte (em especial na voz de Maria Bethânia) que nos diz "quantos homens me amaram/ bem mais e melhor que você". Chico Buarque não só encarnou o espírito feminino, mas também a sua mais perfeita crueldade. E nada mais poderia machucar os brios masculinos que dizer que outro foi melhor em quantidade e também em qualidade. Todas as vezes que ouço essa passagem, dou um risinho com pena do pobre coitado.

Porém, uma coisa ficou no ar. Será que alguém com tanto ressentimento guardado, realmente superou a falta que o outro lhe causou? Parece-me que não. O que a filosofia poderia me dizer? Nietzsche diria que o amante seria o sujeito forte da história pois, diante de uma decisão difícil, ignorou os aspectos morais e foi buscar a felicidade. A figura da mulher nessa obra seria do ressentimento, ou seja, de alguém que não teve forças para dizer não a uma situação sufocante e preferiu se manter num casamento falido. No momento em que foi abandonada, ataca a moral do amante dizendo que foi ele que a deixou e diz ainda que sempre foi submissa, como se a submissão fosse um aspecto moral relevante. Fazendo isso, ela nos mostrar que foi boa o tempo todo e que o outro foi mau.

Porém, Nietzsche vai dizer que não, e ainda vai enquadrá-la como "ovelha". Nas primeiras páginas da "Genealogia da moral", escrito por Nietzsche, ele deixa claro que devemos buscar o caminho que respeite a vida, pois, no contrário, o homem se tornaria desconhecido a si próprio. Mesmo tendo que enfrentar o gosto amargo das vielas do mundo, o homem não deveria se desfiar do caminho que nos leva a verdade. E para isso, ele não deve ir sozinho, deve está bem acompanhado com bons livros, com os bons filósofos. Porém, não para imitá-los. A obra de Nietzsche favorece a velha rebeldia da juventude, que prega a todo momento a ruptura com a tradição.
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Chico se apresentará em Recife no dia 19 e 22 de abril. Fará essas apresentações no Teatro Guararapes. O preço do ingresso é meio salgado,  plateia paga R$ 350,00 e balcão paga R$ 280,00. Professores, estudante e idoso terão o direito de pagar a metade, ou seja, plateia paga R$ 175,00 e balcão paga R$ 140,00. É uma pena que os mais humildes não terão como pagar o ingresso. Só espero que eles não caiam no abismo das calcinhas pretas e na prisão de calypso.

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