28 de mai de 2012

Vocação de Poeta - Friedrich Nietzsche

Vocação de Poeta   Ainda outro dia, na sonolência De escuras árvores, eu, sozinho, Ouvi batendo, como em cadência, Um tique, um taque, bem de mansinho… Fiquei zangado, fechei a cara - Mas afinal me deixei levar E igual a um poeta, que nem repara, Em tique-taque me ouvi falar  E vendo o verso cair, cadente, Sílabas, upa, saltando fora, Tive que rir, rir, de repente, E ri por um bom quarto de hora. Tu, um poeta Tu, um poeta Tua cabeça está assim tão mal - Sim, meu senhor, sois um poeta, E dá de ombros o pica-pau.  Por quem espero aqui nesta moita A quem espreito como um ladrão Um dito Imagem Mas, psiu! Afoita Salta à garupa rima, e refrão. Algo rasteja Ou pula Já o espeta Em verso o poeta, justo e por igual. - Sim, meu senhor, sois um poeta, E dá de ombros o pica-pau.   Rimas, penso eu, serão como dardos Que rebuliços, saltos e sustos Se o dardo agudo vai acertar dos Pobres lagartos os pontos justos. Ai, que ele morre à ponta da seta Ou cambaleia, o ébrio animal! - Sim, meu senhor, sois um poeta, E dá de ombros o pica-pau.  Vesgo versinho, tão apressado, Bêbada corre cada palavrinha! Até que tudo, tiquetaqueado, Cai na corrente, linha após linha. Existe laia tão cruel e abjeta Que isto ainda – alegra O poeta – é mau - Sim, meu senhor, sois um poeta, E dá de ombros o pica-pau.  Tu zombas, ave Queres brincar Se está tão mal minha cabeça Meu coração pior há de estar Ai de ti, que minha raiva cresça! Mas trança rimas, sempre – o poeta, Na raiva mesmo sempre certo e mau. - Sim, meu senhor sois um poeta, E dá de ombros o pica-pau.  Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"
A Gaia Ciência

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