12 de out de 2012

A história dos caçadores

Primeiro dia de observações depois da greve. A sala cheia de jovens com olhos lívidos a esperando as palavras do seu professor. Estamos numa aula de Filosofia e o pensar é objeto de busca. 
 
Lembramos, nesse momento, que na hora de se definir como ser humano, Descartes, filósofo da modernidade, afirmava ser antes de tudo “uma coisa pensante” e não um conjunto de ossos, carne e sangue. Assim, o pensar é o ponto principal de uma aula de filosofia, deve estar presente como horizonte permanente na prática de ensino de filosofia. 

No quadro, o professor rabisca a frase “Valeu a pena?”. Essa questão irá percorrer por todos os recantos da sala de aula. Estamos, através das palavras laqueadas num velho quadro negro, na cidade de Chicago. E plainamos pela Revolta de Haymarket. Diz o professor que homens se manifestavam pacificamente pela jornada de trabalho de 8 horas no ano de 1886. No meio da confusão, uma bomba explode bem no meio dos policiais. A “autoridade” armada até os dentes, imediatamente fere dezenas e mata onze membros da manifestação, que de início, era pacífica. Os organizadores mais comprometidos foram presos e incriminados pelo acontecimento (mesmo na ausência de qualquer prova).

Agora estamos de volta à sala de aula. O professor se dirige aos alunos e verbaliza a frase: Valeu a pena? A liberdade é dada a cada aluno para refletir. Alguns disseram que “não”, pois quatro deles foram executados, um cometeu suicídio antes mesmo do enforcamento, e três deles receberam sentenças de prisão perpétua. E com toda essa injustiça, a atual sociedade mundial e, pelo menos, a americana, não se lembravam mais deles. 

Outros disseram que “sim”, valia a pena, pois a luta, desses homens, garantiu uma jornada de trabalho mais justa. E não é correto dizer que eles estavam brigando para serem lembrados, eternizados. Se assim fosse, esses ideais seriam detestáveis. Para o filósofo Nietzsche, a negação do real em nome de um ideal que busca o além da vida é Niilismo. 

Ainda mais, devido ao empenho na luta por mais dignidade, hoje a manifestação é considerada uma das origens do "1º de Maio”, o Dia do Trabalhador. Ou seja, o 1° de maio não é uma conquista que foge das relações com a vida, ela faz parte de uma conquista que envolvem todos aqueles que um dia trabalharam, que trabalham e que irão um dia trabalhar.

Com o curso de Políticas Educacionais, respondemos questões como as seguintes: “a quem se destina” e “quais são as finalidades do ensino médio” no Brasil. Vimos que muitos dos nosso problemas educacionais têm suas raízes fincadas em decorrer de políticas passadas, num passado que se organizou sob a égide da monocultura do açúcar, baseada no latifúndio e no trabalho escravo de índios e negros. 

Trabalhamos nesse curso com a “Constituição Federal” e com a “LDB”. Elas nos dizem que a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, são direitos sociais que estão garantidos, pelo menos, na forma da lei. 

Vimos que o ensino passou nas mãos dos jesuítas e que o Rei de Portugal praticamente se se desobrigou de custeá-lo. Todavia, quando o sólido e bem organizado sistema dos jesuítas começou a incomodar o Rei, esse modelo de ensino não demorou em ruir.

Vimos que a atitude dos professores tecnicistas, por exemplo, é negativa para a nação e que ele agem como os sofistas. Para o sofista, a verdade de um discurso não era fundamental. O importante era convencer o adversário ou convencer o público presente de que este não tinha razão. Para o professor tecnicista, o importante é convencer a sua turma de um conhecimento qualquer, sem nunca possibilitar uma reflexão a respeito desse conhecimento. 

A Geografia, a Física, a Química, por exemplo, nas mãos desses profissionais, não permitem que o aluno desenvolva processos cognitivos que possibilitem uma ação positiva nas suas vidas. Muitos males poderão ser coibidos através da educação dialogal, democrática e de todos para todos. Podemos ver que os estudantes brasileiros, ao longo da história, foram sendo tratados como um objeto de manipulação a serviço da sociedade burguesa. Os professores foram incapazes de conscientizar e apresentar a população rumos às mudanças necessárias. Assim, através da nossa própria história, podemos perceber que os estudantes brasileiros sempre foram incapazes de lutar contra o sistema que oprime a população. De acordo com uma citação africana: “ Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador”. 

Se valeu a pena Haymarket? Sim! Lutar contra um poder dominador que se dedica a oprimir, sempre valerá a pena.

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