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| Photo Credit: Juliana Coutinho |
Na
rua de barro deixei as minhas melhores lembranças como neblina de
poeira que daqui a pouco não existirá mais. O canto dos pássaros
era imperceptível e hoje mora em meus tímpanos numa percepção de
um passado soberbo e feliz. Um passado pueril com pensamentos
devidamente ingênuos, mas que insiste em ser espectro nas minhas
invenções. E ainda vejo os seus olhos de mar pernambucano nos meus
sonhos nostálgicos. Na sombra de um pé de coração de nego
saboreei um sorriso e na calçada de cimento destruído pelas árvores
vi você sorrir. Em delírios tive você muitas vezes como a minha
primeira namorada, mas como sei nunca a namorei, infelizmente eu
sei. Porém um beijo sem escrúpulos me mostrou quem é que
manda.
“Você, tempo, é quem manda”. E o tempo passou
rápido e injusto.
Foi o fim da expectativa.
Depois da
tempestade só ficou a destruição e idiota é quem diz a bonança.
Quem já se viu bonança em casas despedaçadas por correntes de
águas bestiais? Vi o chão se abrir diante dos meus olhos e o diabo
sair com todos os seus selos de destruição a tocar, com suas
pragas, todos os meus amados. A ganância, intolerância, inveja,
ódio. E no fim, para engrossar o caldo da estupidez, a morte. E o
diabo me disse “No salão da vida tem dessas coisas. Somos
utensílios que com o tempo envelhecem e ficam em desuso por causa de
sua fragilidade. E é preciso destruir as almas para conseguir
outras, pois a indigência é necessária para construir o novo”. E
o demônio desconfigurou-se em várias personalidades famosas e tive
aflição por eles, pois muitos eu amava, muitos admirava, muitos
desejava conhecer e ser. E vi que tudo era um jogo fugaz do príncipe
da mentira.
Na tentativa de fugir dessa realidade macabra,
escondi-me entre a rafameia que me acolheu por um tempo e depois
quis me engolir. Era a certeza de que era preciso caminhar em
direção ao destino e não havia destino para os loucos. Os
loucos desconheciam totalmente o destino. Aceitavam como aceitavam o
pão dormido como alimento. Na dura camada da casca e a infeliz
suspeita que tudo era casca. Fugi mais uma vez em busca de candeias.
Em busca da argila que moldava esperança dentro dos meus
pulmões.
Fracionando o meu existir, eu estava na terceira
parte com mais de cem quilos e uma barba grisalha. As primeiras
folhas da árvore genealógica sentiram o efeito do outono e uma por
uma começaram a cair. Foi o início de muitas lágrimas,
durante e após esses novos eventos. E era preciso agora lutar pelos
talheres para ter direito a janta. Ação desgastante demais para a
minha hipertensão.
Na casa dos sofrimentos físicos e
emocionais, visitei várias vezes o doutor e encontrei paz e até
dormi na penumbra do quarto e na fria maca do hospital, porém,
depois do soro era preciso ter alta e continuar a vida com
comprimidos brancos e controladores de pressão. A tontura do vinho
foi deixada de lado para conviver com a realidade de uma tontura
física e incômoda. O açúcar moderado e o sal, totalmente abolido
da minha dieta sem graça, foram os meus algozes. Tudo estava
seguindo a regra do meu malfeitor. O diabo. Que há muito tempo
me vigiava com as suas tenebrosas magias, removendo os objetos do
lugar, numa artimanha maléfica para, como num filme de comédia
pastelão, me derrubar. Porém, ignorei o apocalíptico e todas as
mazelas de uma dívida injusta, e continuei.
Na mesa de
compensado barato, passei a exercer uma profissão. Era preciso sair
em busca do ouro de tolo para prosseguir com as minhas asneiras, os
meus erros constantes. E lá encontrei outra realidade. Um patrão
que buscava tempo para poder gastar a sua fração e por isso se
tornava marionete e espectador de verdadeiros artistas em
dissimulação, e uma massa que não tinha nenhum dom para a arte
teatral, e, por isso mesmo, aplaudiam os mestres por medo e
obediência. Fui muitas vezes atingido pelas costas sem saber quem
eram os meus carrascos. Criatura que bate sem saber o motivo
que açoita, mas por achar que sabe o motivo pelo qual apanha.
Continuei produtivo, esperançoso e, às vezes, altivo, e sempre era
recompensado com belíssimos aumentos de serviço e nunca de salário.
Desgastei. Comecei a ter desprezo por tudo. Isolei-me numa tentativa
de defesa. Perdi a batalha.
Ainda me lembro dos teus
olhos verdes e ainda me lembro de fazer as minhas orações. É
bem verdade que as minhas orações são grunhidos toscos e
imperceptíveis a ouvidos tão sutis, mas em nenhum momento quis ser
como os hipócritas com suas belas e bem preparadas orações. Só
espero ainda ter contado com Candeias.