Mostrando postagens com marcador Nietzsche. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nietzsche. Mostrar todas as postagens

12 de out. de 2012

A história dos caçadores

Primeiro dia de observações depois da greve. A sala cheia de jovens com olhos lívidos a esperando as palavras do seu professor. Estamos numa aula de Filosofia e o pensar é objeto de busca. 
 
Lembramos, nesse momento, que na hora de se definir como ser humano, Descartes, filósofo da modernidade, afirmava ser antes de tudo “uma coisa pensante” e não um conjunto de ossos, carne e sangue. Assim, o pensar é o ponto principal de uma aula de filosofia, deve estar presente como horizonte permanente na prática de ensino de filosofia. 

No quadro, o professor rabisca a frase “Valeu a pena?”. Essa questão irá percorrer por todos os recantos da sala de aula. Estamos, através das palavras laqueadas num velho quadro negro, na cidade de Chicago. E plainamos pela Revolta de Haymarket. Diz o professor que homens se manifestavam pacificamente pela jornada de trabalho de 8 horas no ano de 1886. No meio da confusão, uma bomba explode bem no meio dos policiais. A “autoridade” armada até os dentes, imediatamente fere dezenas e mata onze membros da manifestação, que de início, era pacífica. Os organizadores mais comprometidos foram presos e incriminados pelo acontecimento (mesmo na ausência de qualquer prova).

14 de abr. de 2012

Olhos nos olhos de Chico Buarque no show em Recife.

www.chicobuarque.com.br

Olhos nos olhos

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.
Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.
Chico Buarque
__________________________________________

Essa é uma das músicas que mais gosto dentro da imensa obra de Chico Buarque. Gosto principalmente da parte (em especial na voz de Maria Bethânia) que nos diz "quantos homens me amaram/ bem mais e melhor que você". Chico Buarque não só encarnou o espírito feminino, mas também a sua mais perfeita crueldade. E nada mais poderia machucar os brios masculinos que dizer que outro foi melhor em quantidade e também em qualidade. Todas as vezes que ouço essa passagem, dou um risinho com pena do pobre coitado.

Porém, uma coisa ficou no ar. Será que alguém com tanto ressentimento guardado, realmente superou a falta que o outro lhe causou? Parece-me que não. O que a filosofia poderia me dizer? Nietzsche diria que o amante seria o sujeito forte da história pois, diante de uma decisão difícil, ignorou os aspectos morais e foi buscar a felicidade. A figura da mulher nessa obra seria do ressentimento, ou seja, de alguém que não teve forças para dizer não a uma situação sufocante e preferiu se manter num casamento falido. No momento em que foi abandonada, ataca a moral do amante dizendo que foi ele que a deixou e diz ainda que sempre foi submissa, como se a submissão fosse um aspecto moral relevante. Fazendo isso, ela nos mostrar que foi boa o tempo todo e que o outro foi mau.

Porém, Nietzsche vai dizer que não, e ainda vai enquadrá-la como "ovelha". Nas primeiras páginas da "Genealogia da moral", escrito por Nietzsche, ele deixa claro que devemos buscar o caminho que respeite a vida, pois, no contrário, o homem se tornaria desconhecido a si próprio. Mesmo tendo que enfrentar o gosto amargo das vielas do mundo, o homem não deveria se desfiar do caminho que nos leva a verdade. E para isso, ele não deve ir sozinho, deve está bem acompanhado com bons livros, com os bons filósofos. Porém, não para imitá-los. A obra de Nietzsche favorece a velha rebeldia da juventude, que prega a todo momento a ruptura com a tradição.
------------------------------------------------------------------------------
Chico se apresentará em Recife no dia 19 e 22 de abril. Fará essas apresentações no Teatro Guararapes. O preço do ingresso é meio salgado,  plateia paga R$ 350,00 e balcão paga R$ 280,00. Professores, estudante e idoso terão o direito de pagar a metade, ou seja, plateia paga R$ 175,00 e balcão paga R$ 140,00. É uma pena que os mais humildes não terão como pagar o ingresso. Só espero que eles não caiam no abismo das calcinhas pretas e na prisão de calypso.

Localização:

10 de abr. de 2012

Miguel de Cevantes e Lars Von Trier

Lars Von Trier -Melancolia

Depois de ler muitas críticas destinadas ao filme "Melancolia", do polêmico Lars Von Trier, pude perceber que para cada crítico havia um filme diferentemente do demais. Mesmo aqueles que só se preocupavam com uma Sinopse sem sal, havia um filme que não correspondia com a película que assisti. O que me levou a crer que todos eles não concordavam em relação à maioria dos aspectos fundamentais da obra. Até mesmo o próprio Lars Von Trier tem na sua mente um filme que não corresponde com as demais críticas. E isso, na verdade, não é nada que chame a atenção, pois essa obra tem as mesmas características de outra obra, de uma obra que não é cinematográfica, mas literária. Estou falando da obra de Miguel de Cervantes: "D. Quixote".

A genial Obra de Miguel de Cervante está destinada a inúmeras possibilidades de interpretação. E isso é devido a esperteza do seu autor, que ao longo da história buscou trabalhar temas universais, mas não com intuito de dar um desfecho limitador, uma solução simplista para cada temática. Assim, cada leitor  de D. Quixote passa a ser um pouco reinventor de D. Quixote.

É dessa maneira que eu vejo o filme "Melancolia". Um filme que não está limitado pelo seu autor, e por isso, está em permanente reinvenções. Principalmente quando o telespectador tem uma leitura filosófica específica. Você pode interpretar a luz dos escritos de Nietzsche, de Heidegger, de Platão, de Aristóteles e etc. No final haverá um filme novinho em folha que somente você assistiu. E ao comentar com os outros que também viram a película, estará se arriscando parecer um lunático. E essa é, com certeza, a maior grandeza do filme, pois trata de dicotomias que percorreram séculos e que ainda causam assombrosas preocupações em pensadores rigorosos. Ou seja, vale a pena assistir!!!


9 de ago. de 2010

Nietzsche: O que é Filosofia?


Nas poucas páginas que se seguem consta o esforço de elucidar o problema “O que é a filosofia?” na visão do pensador alemão Nietzsche. Para essa tarefa era necessário destacar o objeto primordial da questão com o único objetivo de não contaminar o conceito com o filósofo e a sua especulação filosófica e assim evitar transformar o trabalho em uma descrição cronológica ou uma dissertação de acordo com a vida e obra do autor.

No livro “A genealogia da moral” Nietzsche descreve uma instigante reflexão sobre a sua visão de filosofia. Essa citação organizou todo rumo para elucidar “O que é a filosofia?”, afastando o perigo de responder “Qual é o produto que essa filosofia produziu?”. Sendo distintas as perguntas, logo perseguem objetivos distintos.


“Esse é o único modo de pensar digno de um filósofo. Não temos o direito, por qualquer motivo, a viver isolados. Não nos é permitido enganar-nos nem encontrar a verdade por acaso. Pelo contrário, assim como é necessário que uma árvore dê frutos, assim nós frutificamos nossas idéias, nossos valores, nossos “sim”, nossos “não”, nossos “se” , nossos “como” que se desenvolvem, todos aparentados e relacionados entre si, como testemunhas de uma vontade, de uma saúde , de um terreno, de um sol. – Serão de nosso gosto esses frutos de nosso pomar? Mas que importa às árvores? Que importa para nós os filósofos?”

Fica claro que aqui permanece o rumo mais coerente na busca em decifrar “O que é a filosofia?” na visão dionisíaca de Nietzsche. O filósofo elucida a sua forma de ver a filosofia e determina o método de uma investigação honesta e corajosa.

Para Platão, o pensamento tinha que se libertar dos conceitos míticos de sua época. O pensamento só devia ter o compromisso com a verdade. Nietzsche vai além na sua busca. Para o filósofo, o pensamento tem que se libertar de todas as amarras. Até mesmo das regras caducas postas à filosofia. O pensamento não deve ter e nem estabelecer limites para o discurso filosófico. Era preciso até ir de encontro à própria metafísica dos pensadores de sua época. Não vê-la como peça fundamental da filosofia, mas um instrumento para interpretar e regrar o mundo e não uma explicação do universo. Era preciso ir de encontro também aos guardiões da “ratio”, mesmo que isso lhe trouxesse desgosto, sofrimento e a mais profunda rejeição. O Filósofo não pode permanecer escondido em sua torre de marfim por causa das consequências da utilidade da verdade. É preciso, a todo custo, ter um espírito livre.

Também, em muitos dos seus livros, repudiava quem buscava além das estrelas um sentido para existência. Crítico ferrenho da moral cristã, buscava um novo modo de sentir e de pensar. A razão de existir estava em preparar o caminho para chegada de um ser superior, um ser além-do-homem. O filósofo gritaria nos quatro cantos do universo: Deus morreu e com ele a sua filosofia e o seu rebanho. Todos os rebanhos irão findar na preguiça e no esquecimento.

Nietzsche via no homem uma ponte, uma passagem e um declínio. Era no declínio que o homem superaria as suas angustias de viver e fortificaria para continuar a sua jornada evolutiva. O homem era a corda que liga o macaco ao super-homem. A sua grande questão foi o sentido da existência e o valor desse sentido.

Em dois livros (“O anticristo” e “Assim falava Zaratustra”) Nietzsche coloca o filósofo como um ser superior à humanidade. O filósofo é, em sua opinião, um ser de “de consciência nova para verdades que até hoje permaneceram mudas”. Em “Crepúsculo dos ídolos” Nietzsche chegou a comparar o filosofo a uma junção de animal e deus. Esse ser humano-divino se revela um invasor da verdade com ânimo irrequieto, perquiridor. Impossível de domesticar. Disposto a destruir ideias ou, como gostava de denominá-los, ídolos.

Em “Ecce homo” Nietzsche nos diz mais um pouco dessa filosofia que batalhou por toda sua vida. Um relato que se aproxima mais com o Nietzsche filósofo:

“A filosofia, como a compreendi e a vivi até agora, é vida voluntária no meio do gelo e nas altas montanhas – é a busca de tudo o que é estranho e duvidoso na existência, de tudo o que foi até agora proscrito pela moral”.

Essa citação é o retrato fiel de um Nietzsche filósofo. Um homem que fez de sua filosofia a grande transmutação de todos os valores. Essa disposição o fez declarar que já nasceu póstumo (O anticristo) por ser totalmente ignorado em sua época devido aos temas que ousou levantar. Afirmou que não querer admitir o erro não era só um estado de cegueira, mas, certamente, um ato macabro da covardia. Cada conquista da verdade é uma vitória da coragem. O filósofo não deve ser um escravo da opinião pública, do senso comum, da preguiça privada. Deve utilizar a sua existência para combater o conformismo, a mentira. Matar a sua época e estar pronto para morrer com ela e assim despertar a sua época para vida, a fim de resolver, eles próprio, com ela e nela.

Nietzsche lutou com louvor nas suas questões, mas na obra “Genealogia da moral” admite a possibilidade do erro. Confessou que as suas reflexões não estavam livres de um outro martelo mais hábil. Porém, isso não é um reflexo de um filósofo vestido da mais pura humildade. Em “Ecce homo” a sua exuberância é a própria petulância. Uma filosofia sem papas na língua. A verdade é um ponto seco, astuto, sem cerimônia. Ao refletir a possibilidade do erro em algum lugar em seus livros, ele só estava sendo drasticamente coerente com o que acreditava ser filosofia. Mesmo se titulando como “destino”, o próprio destino poderia ser analisado, pesado e alterado por um sentido mais criterioso. A sua verdade também poderia sim conter mentiras.

Nessa viagem empolgante e enriquecedora pelo mundo de Nietzsche, pude experimentar a sua paixão pela filosofia em todos os momentos. Senti todas as suas angustias camufladas em perversos demônios. Contemplei um pensador moralista comprometido em mudar o mundo com um aforismo esmagador, bárbaro. Um cruel martelo para psedo-ídolos. O vi a laquear, em cores cinzas da história, uma nova filosofia. Uma filosofia que ignora a utilidade da verdade, que ignora o senso comum da humanidade e que define o filósofo caiado no papel heróico de um ser superior. O que é a filosofia para Nietzsche? É a boa e velha rebeldia da juventude, é desfrutar a solidão na presença literária dos outros pensadores, é estar sereno e indiferente aos preconceitos e convenções sociais, é o ócio criativo, é estar embriagado pela coragem e acreditar na vitória plena contra qualquer tipo de domesticação.

Referência Bibliográficas:


* Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ed Escala. Assim falava Zaratustra.
* Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ed Escala. A genealogia da moral.
* Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ed Escala. Além do bem e do mal.
* Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ed Escala. Crepúsculo dos ídolos.
* Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ed Escala. Ecce homo.
* Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ed Escala. Schopenheuer Educador
* Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ed Martin Claret. O anticristo.